UMA POESIA PARA A PÓS-MODERNIDADE | Duas Estantes

UMA POESIA PARA A PÓS-MODERNIDADE

ROSI MELO

Preciso confessar que hoje em dia leio pouco poesia. Leio o que os muros da rua estampam, o que a tinta pichada no assento do ônibus grita – dia sim, dia não, pego um ônibus aqui perto de casa com os dizeres “você é tudo que eu sempre quis pra ser feliz” e isso me faz sorrir todas as vezes. Mas sendo sincera? Faz muitos anos que não pego um livro de poemas na biblioteca para ler.

O que é estranho quando penso que, durante a infância e parte da adolescência, eu lia muito autores do gênero, principalmente brasileiros. Passava tardes inteiras folheando antologias poéticas do português Fernando Pessoa, versos de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto e até Cecília Meireles. Como se diz, eu tinha o gosto pela coisa. Até com a poesia densa e misteriosa de Emily Dickinson andei flertando durante o ensino médio.

Escrevia muita poesia também. Tive diversos cadernos com riscos e palavras soltas. Joguei todos fora. Não acredito que tenha sido errada essa atitude, porque simplesmente acho que não tenho o talento pra coisa.

E de uma hora para outra, a poesia fugiu-me. As palavras que rabiscava também se perderam. A fonte secou, digamos assim. Hoje não consigo escrever nem ler nada muito antigo e naquele formato quadradinho sobre poesia. O que tenho lido, esporadicamente, são poesias de autores contemporâneos dessa dita pós-modernidade. E tenho gostado do que leio. Naufragar Jamais (11 editora, 2017), projeto-arte do Poeta em Queda, nome artístico do paulista Pedro Alberto Ribeiro, é um desses achados que me fez repensar o fazer poesia. Me fez entender que poesia não é só aquela que encontramos dentro de bibliotecas, presa a folhas brancas e pálidas, empoeirada em volumes grossos de autores clássicos. Poesia na pós-modernidade é movimento que invadiu as ruas, deturpou formatos e abraçou outras artes.

Em suas 60 páginas, Naufragar Jamais nos presenteia com poesias em trânsito, onde as páginas do livro, que são soltas, nos permitem interagir e explorar o conteúdo, que vai de poemas sobre procuras, dentes, perdas e a falta de sentido do mundo a lindas e delicadas ilustrações do próprio autor.

 

Li o volume inteiro em menos de uma hora. Apesar do formato diferente e das leituras diversas que a obra propõe, a boa sensação de ler poesia que me atingiu não difere daquela outra provocada pela poesia quadradinha. É o êxtase, a constatação de se ver comovido. Sempre me fascinou o modo como poetas conseguem imprimir em poucos versos ou até mesmo em uma simples frase o sentimento de um mundo inteiro. A capacidade de emocionar, digamos, até da maneira mais boba.

 

eu nasci de um mergulho

em mares uterinos

e da contração do corpo de uma deusa.

 

por isso,

ao primeiro sinal da tempestade,

eu me abri como um guarda-chuva

virado de ponta cabeça:

 

eu fui feito para transbordar.

naufragar jamais.

 

Confesso que não conhecia o trabalho do Poeta em Queda Naufragar Jamais foi uma grata surpresa. Nos últimos anos, tive bons e péssimos reencontros com a poesia em sua fase contemporânea e acho importante enaltecer um trabalho de qualidade como esse, principalmente quando ele é feito por um escritor tão talentoso 😉

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