OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES | Duas Estantes

OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

ROSI MELO

Perdoem o título desta postagem, leitores. Me taxem de sensacionalista, se quiserem. Neste texto, não pretendo falar de Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Meu objetivo aqui é falar de outros homens que não amavam as mulheres, os homens da República de Gilead, universo distópico do maravilhoso livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood.

Imagine uma sociedade onde os desastres ambientais afetaram a vida das pessoas a ponto de tornar grande parte delas infertéis. As poucas mulheres férteis são recolhidas, enviadas a casas de estranhos e obrigadas a ter relações sexuais com o homem da casa, o Comandante, contra a sua vontade. Aias, como são chamadas, são uma versão extrema e deturpada do que hoje conhecemos como babás de aluguel. Preciosas porém vítimas. Mulheres que perderem o direito ao próprio corpo.

Nós parecíamos capazes de escolher naquela época. Éramos uma sociedade que estava morrendo, dizia tia Lydia, de um excesso de escolhas.” (Pág. 37)

Uma sociedade onde as mulheres foram proibidas de trabalhar ou administrar qualquer atividade considerada “masculina” segundo os princípios bíblicos (ou melhor dizendo: o patriarcalismo). Renegadas a serem Aias, Marthas (cozinheiras), Tias (instrutoras das aias) ou apenas esposas donas de casa. Onde homens detêm o poder e ditam as regras. Onde todas as decisões políticas, sociais e culturais são tomadas a partir de uma interpretação distorcida da Bíblia. Esta é Gilead.

 

O que eu gostaria de ressaltar é que sim, esse livro é uma distopia, e não, ela não foi lançada recentemente. A obra, escrita em 1985, tem uma proximidade com a nossa realidade que é assustadora. Quando pensamos nos constantes avanços do aquecimento global, na considerável diminuição da taxa de natalidade mundial, no machismo e no longo caminho que precisamos trilhar, enquanto mulheres, por representatividade. Muitos homens ainda odeiam mulheres. Marias da Penha. Dandaras.

“Como sabiam os arquitetos de Gilead, para instituir um sistema totalitarista eficaz ou, de fato, qualquer sistema, seja lá qual for, é preciso que se ofereça alguns benefícios e liberdades, pelo menos para uns poucos privilegiados, em troca daqueles que se retira.” (Pág. 362)

O Conto da Aia traz uma discussão importante. Discuti-lo não é apenas uma modinha dos últimos tempos, que surgiu após o lançamento de uma série (inclusive ótima) sobre o livro. É um livro de ficção, bem sabemos, que se confunde com a barbárie do nosso dia-a-dia e com os fantasmas de séculos passados, quando se pregava que o papel da mulher na sociedade era apenas de cuidar da casa e reproduzir. Uma distopia que parece nos sussurrar: Olhe o que acontece quando o extremismo rege os homens. Nos incita a refletir e perceber que, diante de tantas lutas e vitórias femininas, ainda são os homens os grandes privilegiados atualmente.

Esta é a primeira vez que leio Atwood. E o impacto, confesso, foi bem profundo. Poucas narrativas me impactaram tanto em 2017. Irrelevante falar de capa, edições, projeto gráfico quando uma história toca nosso coração. Você pode achar bobo alguém se emocionar ou ser transformado por um livro, uma ficção, digamos, uma mentira. Quando bem sabemos que mentiras são versões distorcidas da verdade. Próximas a nós. E quando bem sabemos que discutir literatura é exatamente isso: aprender as lições que essas mentiras, meras fantasias nos trazem para evoluir enquanto seres humanos.

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